serpente

Eu sou o erro. O abraço indevido para seus beijos. O deslize que não se deve cometer. No entanto, quero seus lábios no meu mamilo. Seu hálito na minha nuca durante a madrugada. Suas mãos amanhecendo meu desejo. Seus seios despontando em minha aurora.

Acaso quero muito? Quero tudo o que não devo. Quero só o que mereço. Quero a aflição do seu desejo.

Assusto-lhe?

Sim, é de mim que você deve fugir – não foi assim que lhe ensinaram? Conforme-se com a mesmice, com a caretice, e nem ouse me tocar. Sou o sabor que não se deve provar. E se me insinuo pelas frestas do seu desejo, é porque sou um líquido corrosivo (é o que todos lhe dirão. Então foge enquanto há tempo).

Minha larva vulcânica pode lhe prender como um visgo. Pense em você perdida no meu pântano. Meus musgos lanhando suas costas, deixando rastros, vestígios. Sou um risco que não se deve correr. Sou o tipo de felicidade que ninguém perdoa. O amor proibido que só pertence a quem tem ousadia.

– Coragem!

(Só de andar a meu lado já vai mal falada na cidade. Pequena cidade. Minúscula mentalidade.)

Mas… sim: quero seus lábios no meu mamilo!

Sonho-lhe trêmula nos meus dedos. Ofegante nas minhas umidades. Você sabe. Você me pressente. A todo custo evita meus olhares. Trança seus passos pelas calçadas opostas. Só que a noite, na segurança do seu quarto, na escuridão do anonimato… sim, sim, são meus os seus frêmitos solitários…

Meu desejo lhe coloca em perigo…(?)

Há insanidade dentro de você? Há sim – em todos nós brilha, ainda que tímido, um raio de sol. O que você fará com isso é que é o dilema…

Mas…

é hoje o grande dia. A redenção. A entrega. O passo no cadafalso.

Hoje você perde a vida. Já vai tarde, dirão os que são próximos e fingem lhe amar. E todos os beijos que lhe darão serão falsos, beijos de Judas que lhe entregam à milícia. Que reine a tradição! – : todos felizes porque lhe roubaram a ousadia. E se choram, são lágrimas de alívio. E as suas – lágrimas de submissão?

Hipocrisia. Alegram-se por lhe confinar no caixote em que passaram a vida enfiados (e que nos mais secretos desatinos, sonham abandonar).

Que assim seja.

Mas a noite, depois dos deveres de esposa cumpridos, na segurança do seu quarto, na escuridão do anonimato, … ainda serão meus os seus frêmitos solitários!

Oh, não se doa em remorso! Segue dia a dia na morte que escolheu para si. Em paz:

EU sou o erro.

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